Certa vez, fui injustamente acusado de cometer plágio. Foi a primeira (e única) vez e ainda me lembro. Estava na 7ª série, atual 8º ano, quando uma professora de História pediu-nos que fizéssemos uma charge sobre assunto que não me recordo. Não era muito bom em História, mas gostava um pouco de desenho. Brilhante idéia a que tive: desenhei um mapa do Brasil e, saltando para fora dele, um bonequinho carregando às costas um cofre feito o do tio Patinhas. Ao devolver os trabalhos “corrigidos” (ou seja, avaliados), a tal professora disse-me sutilmente: “isso aqui saiu no Globo”. A princípio não entendi. Demorou alguns instantes até que meu cérebro enviasse para o meu estômago a informação de que era hora de congelar e emergir um iceberg até a garganta. Nesse interstício, olhei para o lado como quem busca luz e ar e sem perceber, disse: “quê!” Um colega intrometido respondeu-me abruptamente:
– Saiu no Globo!
– Hã?! – Exclamei espontaneamente, no mesmo instante em que compreendia o que se passava.
– É, saiu no Globo e tu copiô! – insistiu o enxerido.
Jamais esqueci aquele fato.
(Anos mais tarde, reencontrei num ônibus a tal professora e quase fui falar-lhe e, quem sabe, dizer-lhe que hoje sou seu colega. Desisti.)
Agora relembro e reflito sobre o ocorrido. Era o ano de 1995 e internet era algo exótico e distante. Mesmo o computador era algo distante da população. Eram pouquíssimos os sites em português e só naquele ano, coincidentemente, a rede fora aberta para uso comercial no Brasil. O primeiro mecanismo de busca, o Altavista, surgiria apenas no ano seguinte. Plagiar algo demandava pesquisa ou um conhecimento muito específico sobre o assunto. E para um aluno de 7ª série – sobretudo, mas não exclusivamente –, isso deveria – penso – ser reconhecido. Certamente, em casos reais de plágio, uma boa orientação sobre como utilizar a informação é, contemporaneamente, ato mais “pedagógico” do que a punição.
Enfim, o fato é que a preocupação com o plágio sempre esteve presente em todos os níveis de ensino. Hoje, sobretudo em razão (ou pretexto) da internet, essa preocupação tornou-se uma obsessão, vide o número crescente de softwares que vêem sendo desenvolvidos com a finalidade (comercial, obviamente) de facilitar a detecção de trabalhos do tipo “Ctrl+c, Ctrl+v” ou, ainda pior, “Ctrl+a, Ctrl+c, Ctrl+v”. Com isso, cada vez mais alguns professores universitários – os “mais sérios” –, retardam a entrega de trabalhos e notas finais em razão do tempo que demandam para fazerem as devidas verificações. Porém, errar não é apenas humano, mas também mecânico (ou informático).
Recentemente uma amiga foi reprovada em uma disciplina do mestrado de uma instituição pública renomada, acusada pelo professor de cometer plágio. Mas será mesmo que “jogar” o trabalho de alguém em sites de busca garante a verificação da sua autenticidade? Estou certo que não, principalmente em casos – como o de minha amiga – em que o trabalho trata de um assunto excessivamente discutido, baseado em um texto demasiadamente comentado – o que possibilita a coincidência de idéias e interpretações. Talvez os professores que tanto se preocupam em não serem “enganados” com o plágio devessem se preocupar em renovar suas metodologias e referências, proporcionando maior diversidade de idéias e interpretações, além de proporem trabalhos mais críticos em vez de meras resenhas ou resumos de textos batidos.
Numa outra instituição, igualmente renomada, ocorreu um caso semelhante, porém com a inversão dos papéis dos atores. Um aluno de mestrado, ao fazer uma pesquisa na internet sobre o seu tema de estudo, descobriu que seu orientador havia apresentado (roubado) sua idéia em um congresso e publicado trechos inteiros de seu projeto. O que aconteceu com o professor? Não poderia ter sido reprovado… Será mesmo que a questão central aí é o plágio? Não seria mais uma questão de hierarquia? Ou talvez de vaidade? O fato é que não existe originalidade no mundo atual (pós-moderno?), mas apenas novidades. Nesta sociedade de méritos não se valoriza o todo e a essência, mas o imediato, efêmero e aparente.
Repugnante…
