segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O plágio na sociedade pós-moderna: um aspecto

Certa vez, fui injustamente acusado de cometer plágio. Foi a primeira (e única) vez e ainda me lembro. Estava na 7ª série, atual 8º ano, quando uma professora de História pediu-nos que fizéssemos uma charge sobre assunto que não me recordo. Não era muito bom em História, mas gostava um pouco de desenho. Brilhante idéia a que tive: desenhei um mapa do Brasil e, saltando para fora dele, um bonequinho carregando às costas um cofre feito o do tio Patinhas. Ao devolver os trabalhos “corrigidos” (ou seja, avaliados), a tal professora disse-me sutilmente: “isso aqui saiu no Globo”. A princípio não entendi. Demorou alguns instantes até que meu cérebro enviasse para o meu estômago a informação de que era hora de congelar e emergir um iceberg até a garganta. Nesse interstício, olhei para o lado como quem busca luz e ar e sem perceber, disse: “quê!” Um colega intrometido respondeu-me abruptamente:
– Saiu no Globo!
– Hã?! – Exclamei espontaneamente, no mesmo instante em que compreendia o que se passava.
– É, saiu no Globo e tu copiô! – insistiu o enxerido.
Jamais esqueci aquele fato.
(Anos mais tarde, reencontrei num ônibus a tal professora e quase fui falar-lhe e, quem sabe, dizer-lhe que hoje sou seu colega. Desisti.)
Agora relembro e reflito sobre o ocorrido. Era o ano de 1995 e internet era algo exótico e distante. Mesmo o computador era algo distante da população. Eram pouquíssimos os sites em português e só naquele ano, coincidentemente, a rede fora aberta para uso comercial no Brasil. O primeiro mecanismo de busca, o Altavista, surgiria apenas no ano seguinte. Plagiar algo demandava pesquisa ou um conhecimento muito específico sobre o assunto. E para um aluno de 7ª série – sobretudo, mas não exclusivamente –, isso deveria – penso – ser reconhecido. Certamente, em casos reais de plágio, uma boa orientação sobre como utilizar a informação é, contemporaneamente, ato mais “pedagógico” do que a punição.
Enfim, o fato é que a preocupação com o plágio sempre esteve presente em todos os níveis de ensino. Hoje, sobretudo em razão (ou pretexto) da internet, essa preocupação tornou-se uma obsessão, vide o número crescente de softwares que vêem sendo desenvolvidos com a finalidade (comercial, obviamente) de facilitar a detecção de trabalhos do tipo “Ctrl+c, Ctrl+v” ou, ainda pior, “Ctrl+a, Ctrl+c, Ctrl+v”. Com isso, cada vez mais alguns professores universitários – os “mais sérios” –, retardam a entrega de trabalhos e notas finais em razão do tempo que demandam para fazerem as devidas verificações. Porém, errar não é apenas humano, mas também mecânico (ou informático).
Recentemente uma amiga foi reprovada em uma disciplina do mestrado de uma instituição pública renomada, acusada pelo professor de cometer plágio. Mas será mesmo que “jogar” o trabalho de alguém em sites de busca garante a verificação da sua autenticidade? Estou certo que não, principalmente em casos – como o de minha amiga – em que o trabalho trata de um assunto excessivamente discutido, baseado em um texto demasiadamente comentado – o que possibilita a coincidência de idéias e interpretações. Talvez os professores que tanto se preocupam em não serem “enganados” com o plágio devessem se preocupar em renovar suas metodologias e referências, proporcionando maior diversidade de idéias e interpretações, além de proporem trabalhos mais críticos em vez de meras resenhas ou resumos de textos batidos.
Numa outra instituição, igualmente renomada, ocorreu um caso semelhante, porém com a inversão dos papéis dos atores. Um aluno de mestrado, ao fazer uma pesquisa na internet sobre o seu tema de estudo, descobriu que seu orientador havia apresentado (roubado) sua idéia em um congresso e publicado trechos inteiros de seu projeto. O que aconteceu com o professor? Não poderia ter sido reprovado… Será mesmo que a questão central aí é o plágio? Não seria mais uma questão de hierarquia? Ou talvez de vaidade? O fato é que não existe originalidade no mundo atual (pós-moderno?), mas apenas novidades. Nesta sociedade de méritos não se valoriza o todo e a essência, mas o imediato, efêmero e aparente.
Repugnante…

terça-feira, 3 de março de 2009

Qual a cor do seu namorado

Certa vez, chamou-me a atenção um grupo de meninas, numa praça em frente à escola onde estudavam, e onde eu também já havia estudado, brincando de pular corda. Há muito tempo não via crianças brincando de pular corda. Aquela cena não só me surpreendeu como me fez refletir sobre brincadeiras de criança que vão sendo esquecidas com o tempo e que, de vez em quando, ressurgem como se fossem novidade e, ao mesmo tempo, jamais tivessem sido esquecidas (mesmo que, não raro, com cantigas, expressões ou elementos inéditos, parodiados ou transformados).
– Qual a cor do seu namorado/ Preto, branco louro ou moreno? – cantavam – Quantos anos ele tem? – e pulavam.
Quanto mais tempo ficavam sem errar, mais se divertiam, mais comemoravam e riam. Até perceberem que não era muito legal ter um namorado muito velho. Então, passaram a errar propositalmente, escolhendo assim a idade de seus namorados. Dezoito; vinte anos… Não mais que isso. (Crianças que não deviam passar dos doze.) A brincadeira parecia ter ficado mais divertida com o ato de “zoar” as amigas que tivessem seus “namorados velhos” do que com o ato de pular, cantar e bater a corda. E não importava errar logo. Importava escolher a melhor idade para os seus namorados.
Então, porque não escolherem também a sua cor? Branco. Loiro. De vez em quando, moreno. Preto não. Era perceptível o cuidado que tomavam na “hora do preto”. E a brincadeira acabou quando uma das meninas, enfurecida, acusou as duas que seguravam a corda de terem provocado o seu erro “bem na hora do preto”:
– De propósito, de propósito…

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Certa vez...

Certa vez, sonhei ser astrônomo. Este meu sonho se perdeu nas estrelas do cotidiano, virou poeira cósmica na rotina escolar. Há muito tempo não o sonho e nem o sinto mais dentro de mim.
Certa vez, sonhei ser desenhista. Este meu sonho se perdeu em minha preguiça, na preguiça que acompanha muita gente que tem seus sonhos desacreditados por pessoas que há muito são a própria descrença. Há muito tempo aquele meu talento se perdeu e não o sinto mais dentro de mim.
Certa vez, sonhei ser jogador de futebol. Sonho clássico de criança de subúrbio que não vê muito além de suas possibilidades cotidianas e que se diverte com uma bola como se não existisse nada mais. Este meu sonho se perdeu no meu pouco talento, na minha muita idade e não o sinto mais dentro de mim.
Certa vez, sonhei ser músico. Este meu sonho contrariava, pela primeira vez, todas as possibilidades e expectativas do meu cotidiano: um roqueiro no mundo do funk e do pagode. Este meu sonho se perdeu em mim mesmo, nos contrastes entre mim e o meu meio, na contradição que me tornei com a contribuição de cada sonho perdido, na preguiça, outra vez, e, outra vez, na rotina, no cotidiano e nas parcas possibilidades. Este meu sonho se perdeu, mas mesmo tendo sido o mais desestruturado de todos, ainda o sinto tímido dentro de mim.
Certa vez, sonhei ser historiador. Com este meu sonho eu poderia escrever a história da astronomia, a história da arte, a história do futebol, a história da música, a história da história… Poderia ainda entender como e porque sonhos como os meus se perdem pelos caminhos da vida. Era o sonho ideal. Encarei, pela primeira vez, as forças contrárias do descrédito. Estudei, passei no vestibular, cursei quatro anos de bacharelado e mais um de licenciatura e me formei. Porém, meu sonho já havia se perdido, mas desta vez, nele mesmo. Sem que eu percebesse, ele foi sendo corrompido pelos métodos e teorias, foi-se enquadrando nas linhas de pesquisa e nas delimitações temporais. Foi a pior perda de todos os sonhos porque não deixou saudades. Já não o sinto mais dentro nem fora de mim.
Certa vez, sonhei ser professor. Ainda sonho…